Por Fernanda Miranda e Gabriela Costa

Chegamos à PUC e vimos uma movimentação estranha, muitas tendas montadas, vários aparelhos… Perguntamos ao segurança do que se tratava: “Vão gravar um filme com Rodrigo Santoro e Cauã Reymond”. O passar da aula nunca foi tão cansativo – o corpo presente, mas a cabeça do outro lado da rua. Acaba a aula e o público feminino puquiano inteiro se dirige à igrejinha da Monte Alegre, onde estavam ocorrendo as gravações, para ver os maiores galãs nacionais- impressionante como nestas horas as notícias correm mais rapidamente do que um vírus na internet. Estavam eles lá, distantes, cercados por toda uma equipe, não se via quase nada e o pouco que se via já era o suficiente para os gritos da “platéia”. Passam-se algumas horas e o que se tem é um pedacinho de Santoro e Cauã. Cai uma chuva, muita gente vai embora, eles entram na igreja e restam poucas pessoas ao redor. Nós ficamos. E ai então surgiu a idéia da entrevista. Fomos procurar os produtores e a resposta foi uma quantidade enorme de “NÃOS”! Não? Mas quem se contenta fácil com um não? A gente jamais se contentaria numa situação dessas: não é toda hora que Rodrigo Santoro e Cauã Reymond aparecem “de mão beijada” na sua faculdade, não podíamos deixar passar essa oportunidade. Uma amizadezinha com um segurança ali, outra com os assistentes de elenco e ficamos sabendo que a hora do almoço estava chegando e onde aconteceria. Foi nesse intervalo que tomamos contato com os atores. Primeiro entrevistamos o simpático Cauã (a entrevista será postada aqui na próxima semana) e depois tivemos uma primeira conversa rápida com o Rodrigo, ele estava muito sério e nos pediu que, por falta de tempo, mandássemos a entrevista por escrito que ele responderia e pediria para a assistente entregar.
Depois de mais de 2 horas de espera, ele apareceu lá fora e nos reconheceu. Procurou o papel com as respostas em seu paletó, e não achou. Logo depois, chegou uma assistente: “Meninas, o Santoro respondeu as perguntas, só que perdeu o papel. Se vocês quiserem, ele falou que dá entrevista depois das gravações. Elas vão terminar às 7 horas”. Como não podíamos perder a oportunidade de entrevistá-lo, entramos na PUC, fomos à biblioteca, demos uma relaxada. Quando voltamos lá, mais ou menos 1 hora depois, por volta das 5, a gravação ainda não tinha terminado e ele nos reconheceu novamente, em meio a ela. Só que dessa vez a surpresa foi maior. Santoro olhou com uma cara de indignado – pois ainda estávamos lá esperando – e ficou cochichando com um segurança. Minutos depois, como a rua estava cheia de curiosos, o segurança chegou pra falar com a gente, e disse baixinho: “Meninas, entrem por aquela porta agora disfarçadamente. O Santoro vai estar lá embaixo esperando vocês”.
Emoção, ansiedade, alegria… Não dá nem pra descrever tamanha felicidade que estávamos. Entramos pela portinha e fomos descendo umas escadas – tremendo, nervosas. Foi um longo caminho. Quando entramos na sala, Santoro estava no final dela, de costas, rabiscando em uma lousa. Virou, estava comendo uma banana. A assistente que nos acompanhou até lá embaixo gritou: “Boa sorte, meninas!”. Santoro jogou a casca da banana na mesa, sorriu, nos cumprimentou e, diferente do primeiro contato, foi suuuper simpático. A entrevista, na íntegra, você confere agora.
PUCF5 – No que o cinema brasileiro ganha do cinema internacional?
Rodrigo Santoro: Eu acho que o cinema brasileiro está buscando a sua identidade. Na verdade a gente teve um hiato, o Brasil fazia muito cinema a um bom tempo atrás, parou durante um bom tempo, e o que se chama da “retomada” veio com “Carlota Joaquina”, “O Bicho de Sete Cabeças”… Retomou-se a produção, e eu acho que o cinema brasileiro está conseguindo encontrar um estilo, uma forma, conseguindo diversificar. Cada vez mais muitos filmes estão sendo feitos, e os temas são os mais variados.
PUCF5- E a diferença do público do Brasil e o internacional?
Santoro: Eu acho que nem da muito pra comparar porque, se a gente falar de Hollywood especificamente, tem um público muito maior porque é um mercado, né? É uma coisa que faz parte da cultura, como o futebol e o carnaval pra gente. Então é um mercado aquilo ali, muita gente vai… Os filmes gastam muito dinheiro para fazer, e por quê? Porque muita gente vai. E uma coisa puxa a outra. Aqui a gente não tem tantas salas de cinema, a gente não faz tantos filmes, e não tem tantas pessoas indo assistir. O que é duro às vezes ver que as pessoas vão assistir o Homem Aranha. Mas não vão, de repente, assistir um filme menor brasileiro. Isso dói no coração, vou te falar a verdade. Dá pra entender, o Homem Aranha é um filme de ação, mais entretenimento, e eu acho que os filmes que a gente tem feito são mais independentes, histórias sobre as pessoas, não são filmes com efeitos especiais e por isso, talvez, as comédias também vão muito bem, então acho que tem uma tendência a ter um mercado maior e mais público pra esse tipo de filme. Mas a vontade é que o público venha comparecer, porque a presença do público é o motor, a presença do público é muito importante.
PUCF5 – Nessa relação do público com o cinema, qual você acha que é o papel social do cinema?
Santoro: O papel social é muito simples. No cinema, de certa forma, a intenção é refletir, a condição é refletir o ser humano, refletir a vida, e tocar as pessoas. Mas é claro que você não ta fazendo o filme para reflexão. Você faz um filme pra contar uma história. E aquela história é cheia de relações, os personagens são seres humanos e com isso você acha que as pessoas vão se identificar ou não, mas vão ser tocadas. E a partir daí, em alguns casos, eu acho que propõe uma reflexão. Depende do tema, né? Depende do que está sendo tratado no filme.
PUCF5 – E entrando no aspecto da história de um filme, as experiências com seus personagens refletem sobre você, eles fazem mudar o Rodrigo Santoro?
Santoro: Eu acho que depois de cada experiência você sempre carrega muita coisa. O personagem é um personagem, na verdade eu empresto coisas pra personagem. Quando acaba não, o personagem é o personagem, eu sou eu. Mas a experiência que eu tive fazendo aquele personagem, naquele filme, é aí que você aprende. E aí você faz coisas pra sua vida. Pra quem você é. Mas é como qualquer aprendizado na vida. Nem sempre tenho uma relação especifica com a personagem, mas às vezes até tenho. Por exemplo, no “O Bicho de Sete Cabeças”, eu estive muito dentro de instituição mental, e eu acho que as pessoas têm muito, não só o preconceito, mas uma idéia do que é meio estereotipada, e quando você entra, se aproxima de qualquer universo, não tem somente uma idéia, você se aproxima daquilo, você conhece melhor e daí você se livra um pouco desse pré-conceito de alguma coisa. Então eu, por exemplo, tenho muito mais sensibilidade e mais respeito com essa questão. É uma coisa que eu aprendi com essa experiência.
PUCF5 – Eu li numas entrevistas que você fala muito do “pessoal de você mesmo”…
Santoro interrompe: eu falei uma vez isso daí, eu nem lembro, foi numa entrevista que eu fiz na TPM, não sei o que era exatamente.
PUCF5 - Mas foi uma coisa que apareceu várias vezes…
Santoro: A edição faz isso, né? Vocês estão estudando jornalismo, né? Então se preparem! Eu estudei jornalismo. Na PUC. Eu estudei jornalismo na PUC do Rio e parei, comecei a trabalhar como ator, e foi ficando cada vez mais difícil. Parei no 5º período. E daí eu tranquei, voltei, e depois eu tentei voltar de novo, aí eu aprendi o que significava a palavra “jubilou”. Sabe o que é jubilar? Jubilar foi o que o reitor me disse. Se eu trancar duas vezes, não pode mais voltar. E daí eu não pude terminar a faculdade.
PUCF5 - Mas foi jornalismo mesmo?
Santoro: Não, eu fiz Comunicação Social, eu tava num momento de escolha, eu ia fazer Publicidade ou Jornalismo. Tava pensando, mas tava tendendo mais pra publicidade. Porque eu queria uma coisa mais, criação, comercial.
PUCF5 – E isso te ajuda em alguma coisa na sua carreira de ator hoje em dia?
Santoro: Me ajuda muito o que eu aprendi, nas aulas que eu tive o ano inteiro. Filosofia, Política, Antropologia, Psicologia. E eu vejo muita gente, tem atores assim, mais velhos, que iam fazer curso disso.
PUCF5 - Tem muito ator que fez jornalismo.
Santoro: A verdade é que o curso me foi muito útil. Como estudo mesmo. Porque filosofia, psicologia, antropologia, tem tudo a ver com a profissão de ator. Então tudo que eu estudei aqui me serviu para minha vida e pra minha profissão.
PUCF5 - Bom, então, voltando para o “pessoal de você mesmo”…
Santoro: Eu estava falando do “pessoal de você mesmo”, porque o editor ressaltou isso. Você faz uma entrevista, como a gente está fazendo agora, e depois o editor vai lá e “pinça” alguma coisa. Na visão dele ou vai vender mais, ou vai causar mais polêmica, depende aí da intenção, né?
PUCF5 -Então, o que você, dentro do pessoal de você mesmo, implica com você em relação à profissão? Porque você já fez tanto trabalho bom, todo mundo está te elogiando, tanto profissionalmente como um galã, mas qual sua implicância, o que você acha que “isso aí eu preciso trabalhar muito mais”?
Santoro: Eu acho que o que mais eu procuro fazer é trabalhar pra não trabalhar. Porque eu fico trabalhando muito, e às vezes, uma coisa que eu aprendi, é que é preciso intervalos. Não entre um trabalho e outro, mas enquanto eu trabalhar. Por exemplo, o que estou fazendo agora. Quer dizer, nem devia, eu devia estar lá filmando. Mas na verdade, isso aqui me dá uma reciclada, me dá uma zerada. E é exatamente isso, encontrar intervalos. Porque na hora em que você está trabalhando o pessoal começa a falar “não sei o que, não sei o que, não sei o que”, e o mental fica muito atingido e às vezes é bom silenciar. Bom, “vamos ficar um pouquinho quietinho”, ou trocar o assunto, ou uma coisa assim. Às vezes eu tento colocar o pessoal de mim mesmo no lugar dele, “quietinho”, um pouquinho: “Me deixa ficar agora sem pensar em nada, ou pensando em outra coisa”.