Por Naíra Gascon e Patrícia Saad
A prática do suicídio sempre foi algo mórbido e polêmico que intriga as mais diversas culturas. É uma atitude associada a algum tipo de desequilíbrio emocional, ocasionado por diversos motivos – debilitações mentais (como a psicose, que deixa o indivíduo fora de si) e físicas (que podem levar a depressão, como no caso de uma doença terminal ou muito grave), problemas sociais, com a família ou outras pessoas, problemas econômicos, um simples impulso desesperado ou até mesmo por uma motivação política ou religiosa, no sentido de reivindicar algo ou lutar por uma causa. Atualmente, 1 milhão de pessoas se suicidam por ano. E pior: essa taxa tende a aumentar, podendo contabilizar vinte mortes por segundo e uma tentativa a cada dois segundos no ano de 2020.
Pesquisando sobre os índices suicidas, obtêm-se dados impressionantes. A principal faixa etária de suicidas é abrangente, ao contrário do que se pensa, e engloba basicamente pessoas de várias idades, numa média dos 15 aos 50 anos, confirmando a grande diversidade de motivos que leva ao ato. Atualmente, no entanto, observa-se um aumento do número de adolescentes que se matam, influenciados pela proliferação de drogas ilícitas. Além disso, é comprovado que o suicídio entre os homens é três vezes mais freqüente que entre as mulheres, embora sejam elas que cometam mais tentativas “mal sucedidas”, já que utilizam métodos menos agressivos e letais que os homens, como overdose e ingestão de veneno.
Em termos regionais, observam-se maiores taxas de suicídio nos países do Leste Europeu, com médias acima de 40 suicídios por 100.000 habitantes. No entanto, em números absolutos, o líder é a China (onde as mulheres se suicidam mais que os homens) seguida da Índia, Rússia, Estados Unidos e Japão. Os números brasileiros, felizmente, são baixos. É curioso perceber como os principais centros suicidas do mundo encontram-se em países desenvolvidos.
A prática do suicídio pode ser feita de diversas maneiras, sendo dez as mais comuns. As duas mais utilizadas são o tiro com armas de fogo (a proibição da posse destas diminuiu as ocorrências em muitos países) e a overdose de droga ou álcool. Aquilo que sempre é mostrado em filmes e na mídia em geral, como afogamento, se jogar de determinada altura e cortar os pulsos ocupam os últimos lugares da lista, sendo superados por meios incomuns como inalação de monóxido de carbono ou sufocamento. Caso fossem analisadas e conhecidas, poderiam ser evitadas pela vigilância de parentes. Na China, por exemplo, são os pesticidas, instrumento de trabalho dos camponeses, a principal “arma” usado por eles próprios para cometer o suicídio. Quem pensaria nisso?
Mas, o que leva um indivíduo a cometer o suicídio? Qual é a influência externa que ele sofre? Geralmente, o ato suicida é visto como uma fuga; a única saída possível para um problema insolúvel. Quem a realiza se encontra em depressão e extremo desespero, e, devido a esse estado, não consegue enxergar uma solução plausível para suas dificuldades. Além disso, a maioria dos suicidas não divide seus sentimentos- interioriza suas amarguras até o momento final, quando já é tarde mais – o que deixa o problema mais complexo. Indivíduos impulsivos, com dificuldade para resolver problemas, baixa estima ou mesmo herança genética de familiares alcoólatras ou depressivos podem estar mais propensos a se matarem – mas é importante esclarecer que essas condições não formatam uma regra, podendo ser apenas fatores colaborativos. Além disso, pessoas que se encontram em más situações econômicas também podem acabar com suas vidas – a pressão no ambiente de trabalho, o desemprego, salários insuficientes, são algumas das razões. Com a crise financeira atual, houve um aumento no numero de suicídios em fábricas e empresas.
Mesmo que em menor quantidade, há também os suicídios de cunhos político-religiosos. Em países islâmicos, ocorrem dois fenômenos diferentes: enquanto a religião proíbe o suicídio, impedindo a proliferação destes por seus adeptos, os fundamentalistas e seus ataques terroristas, como carros e homens bomba, se suicidam a fim de lutar pela disseminação da religião islâmica. Esse tipo de comportamento contribuiu para que o suicídio fosse visto como um ato heróico por essas vertentes mais radicais. Devemos lembrar que todas as maiores religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo condenam o suicídio, porém, interpretações erradas e extremas do comprometimento com a religião podem levar à sua prática. Já em países declarados ateus, como a China e os do Leste Europeu, as taxas são as maiores do mundo, como já citado.
A presença desse tema na mídia deriva principalmente devido de célebres casos de personalidades que cometeram suicídio. Casos históricos como o da Rainha Cleópatra, do presidente Getúlio Vargas e mais recentes como do roqueiro Kurt Cobain, o suicídio de celebridades, hoje em dia mais usual entre cantores e atores mundialmente famosos, é comum e continua chocando todo o mundo a cada ocorrência. Há também filmes que tratam dessa questão, como Amor além da vida e Sociedade dos Poetas Mortos. Além disso, a presença de sites na Internet que reuniam possíveis suicidas, que dividiam seus problemas e davam sugestões de formas para se matar, é freqüente e agrava ainda mais o quadro.

Carta de suicídio de Kurt Cobain. "... Please keep going cortney. For Frances. For fer life wich will be so much happier without me. I love you. I love you."
É de extrema importância a atuação da família e dos amigos no caso de um “suicida em potencial”. Ao perceber algum comportamento estranho, como depressão, humor muito instável, apatia, isolamento e vício em álcool ou drogas, é imprescindível que a pessoa seja levada a um especialista, psiquiatra ou psicólogo, a fim de analisar e conseqüentemente encaminhar a um tratamento. Os grupos de apoio também podem ser úteis, uma vez que munidos de uma metodologia correta – ao contrário, podem acabar estimulando o suicida. Além disso, o diálogo com os parentes e relacionados é indispensável, e talvez a mais importante forma de ajuda a uma pessoa com riscos de cometer atitudes autodestrutivas. É preciso conscientizar essas pessoas que, independetemente de sua dificuldade, sua vida tem valor. Não deixemos que seja tarde demais.

